Sociedade Brasileira de Pediatria condena 'Super Drags', animação brasileira que é voltada para adultos

20 JUL 2018
20 de Julho de 2018

A série “Super Drags” ainda está em fase de produção, mas já levantou um grande debate. De acordo com uma nota oficial da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o órgão “vê com preocupação o anúncio de estreia de um desenho animado cuja trama gira ao redor de jovens que se transformam em drag queens super-heroínas”.

A carta tem como título “Contra a exposição de crianças e adolescentes a conteúdos impróprios na TV” e “alerta para os riscos de se utilizar uma linguagem iminentemente infantil para discutir tópicos próprios do mundo adulto”. Leia o comunicado na íntegra logo abaixo.

Vale lembrar que “Super Drags” não seria a primeira animação a discutir tópicos do mundo adulto. “Futurama”, “Simpsons”, “South Park” e “Rick and Morty” são alguns exemplos.

Produzida para a Netflix, a série “Super Drags” vai mostrar a história de três amigos que “de dia, trabalham numa loja de departamento e têm que aguentar o chefe escroto. De noite, eles aquendam a neca e se transformam nas super drags, prontas para salvar o mundo da maldade e da caretice, enfrentando um vilão desaplaudido a cada episódio”, segundo descrição da plataforma.

O programa é a primeira animação brasileira a entrar para o catálogo do serviço de streaming e não tem data de estreia prevista. O único conteúdo disponibilizado até agora é um teaser de 27 segundos. Clique aqui e assista.

A série é escrita por Anderson Mahanski, Fernando Mendonça e Paulo Lescaut e produzida pela Combo Estúdio. Procurado pelo G1 para falar sobre a nota da SBP, o estúdio informou que “tanto o estúdio como os criadores só poderão se manifestar oficialmente, sem o consentimento da Netflix, após o lançamento da série”.

Já a Netflix informou que "oferece uma grande variedade de conteúdos para todos os gostos e preferências” e ressaltou que ‘Super Drag’s é uma série de animação para uma audiência adulta e não estará disponível na plataforma infantil”.

“A seção dedicada às crianças combinada com o recurso de controlar o acesso aos nossos títulos faz com que pais confiem em nosso serviço como um espaço seguro e apropriado para os seus filhos. As crianças podem acessar apenas o nosso catálogo infantil e colocamos o controle nas mãos dos pais sobre quando e a que tipo de conteúdo seus filhos podem assistir."

A plataforma informou ainda que, por estar em ainda em produção, a série ainda não tem classificação indicativa, mas está sendo desenvolvida para uma audiência adulta.

A produção de animes originais da Netflix, aliás, não costuma ser dedicada ao público infantil. Das 22 produções originais disponíveis atualmente no catálogo da plataforma:

* 2 são de classificação livre (“Glitter Force” e “Glitter Force Doki Doki”)
* 1 para acima de 18 anos (“Devilman Crybaby”)
* As outras têm indicação para 12, 14 ou 16 anos

"Qual público vai atingir?"

Em entrevista ao G1, João Coriolano, do Departamento de Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento da Sociedade Brasileira de Pediatria, declarou que apesar do conteúdo ser voltado inteiramente para adultos a escolha da temática de super-heróinas está associada ao universo infantil.

"O super-herói para a criança vai funcionar como um modelo de comportamento, a criança vai usar o super-herói para tentar imitar o super-herói e com este tipo de situação que vai ser abordado na forma de desenho, é lógico que isso vai ser uma atração para criança. Essa é a preocupação da SBP. Será que os assuntos são adequados para serem levados a um público infantil?", diz.

Questionado sobre o universo das animações para adultos, que inclui série como "South Park", no ar há 21 anos, e "Rick e Morty", cujos protagonistas são crianças e adolescentes, Coriolano voltou a declarar que é a temática de heróis que causa preocupação da SBP com "Super Drags".

“Na hora que você põe isso na forma de um desenho, na forma de super-herói, que público você vai atingir? É o adulto ou é a criança? É a criança, lógico. É a criança que vai procurar isso aí. O adulto não procura super-herói", diz Coriolano.

Para Coriolano, o fato do programa estar no catálogo adulto e do serviço também disponibilizar controle de acesso aos títulos para os pais, não impede que as crianças tenham acesso a ele: "Mas não são todos os pais que conseguem controlar isso. Depois que você solta as coisas é muito mais difícil impedir. Se o conteúdo não for adequado, você tirar do ar depois é muito mais difícil. Vamos passar por uma aprovação antes de lançar? Vamos consultar primeiro as pessoas que são capazes de opinar e dar uma opinião correta? ".

Ele também declarou que a Sociedade Brasileira de Pediatria respeita e defende a diversidade de gênero e a liberdade de expressão e que em nenhum momento a SBP vai contra estes aspectos e nem está criticando a série sobre as drag queens.

"Ela respeita também as drag queens, mas a partir do momento que estas drag queens são colocadas na forma de super-heroínas, usando uma linguagem que talvez não seja a mais adequada para a população infantil juntadas em um desenho animado e discutindo temas que seriam do universo adulto... Não tenho acesso à íntegra desse desenho, mas a gente imagina que se tratando de drag queen e sendo super-heroínas elas vão tentar combater violência, os assuntos devem girar em torno disso e o que a SBP questiona é a capacidade cognitiva dessa criança, que ainda está em um processo de formação física, mental e emocional. Isso deixa a gente com um pé atrás e uma preocupação muito grande.”

Leia a nota da Sociedade Brasileira de Pediatria na íntegra:

"A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), em nome de cerca de 40 mil especialistas na saúde física, mental e emocional de cerca de 60 de milhões de crianças e adolescentes, vê com preocupação o anúncio de estreia, no segundo semestre de 2018, de um desenho animado, a ser exibido em plataforma de streaming, cuja trama gira ao redor de jovens que se transformam em drag queens super-heroínas.

A SBP respeita a diversidade e defende a liberdade de expressão e artística no País, no entanto, alerta para os riscos de se utilizar uma linguagem iminentemente infantil para discutir tópicos próprios do mundo adulto, o que exige maior capacidade cognitiva e de elaboração por parte dos espectadores.

A situação se agrava com o fim da Classificação Indicativa, decretado com sentença do Supremo Tribunal Federal (STF) que declarou inconstitucional o dispositivo do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) que estabelece multa e suspensão às emissoras de rádio e TV ao exibirem programas em horário diverso do autorizado pela classificação indicativa.

Essa decisão deixa crianças e os adolescentes dependentes, exclusivamente, do bom senso das emissoras de TV e plataformas de streaming, agregando um complicador a mais às relações delicadas existentes no seio da família, do ambiente escolar e da sociedade, de forma em geral.

Isso por conta do risco de exposição indevida desse segmento, por meio de programas, como esse desenho animado, a imagens e conteúdos com menções diretas e/ou indiretas a situações de sexo, de violência, de emprego de linguagem imprópria ou de uso de drogas.

Vários estudos internacionais importantes comprovam os efeitos nocivos, entre crianças e adolescentes, desse tipo de exposição. Ressalte-se o período de extrema vulnerabilidade pela qual passam esses segmentos, com impacto em processos de formação física, mental e emocional.

Sendo assim, a SBP reitera seu compromisso com a liberdade de expressão e com a diversidade, mas apela à plataforma que cancele esse lançamento, como expressão de compromisso do desenvolvimento de futuras gerações.

Além disso, a SBP pede aos políticos que, considerando a impossibilidade de recurso à decisão do STF, reabram o debate sobre a retomada da Classificação Indicativa ouvindo a contribuição dos especialistas, o que permitirá encontrar solução que não comprometa questões artísticas e assegure mecanismos de proteção para o público composto por crianças e adolescentes."


Fonte: G1

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